segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Confidências

Tenho a certeza que quem me conhece se visse fotografias minhas de há 10 anos atrás, não me reconheceria. Felizmente nessa altura eu tinha ódio a maquinas fotográficas e os registos do que eu era nessa altura são quase nulos.
Eu própria fico assustada, quando olho para as minhas roupas desses tempos.
Claro que tudo tem uma explicação, que por acaso pouca gente sabe, porque nunca gostei muito de falar sobre isso, mas neste momento sinto que me libertei e que preciso de dizer o que guardei para mim durante anos.
Até aos 16, 17 anos, eu tinha um desgosto enorme por ser rapariga. Detestava simplesmente. Detestava tudo o que fosse relacionado com isso. Roupas, sapatos, bijutaria, perfumes... Eu usava roupa super larga, o mais parecido possível com roupa de menino. Usava ténis o ano todo. O cabelo bem apanhado e nunca mas mesmo nunca solto.
Foi um drama quando o meu corpo começou a mudar. Odiava todas as mudanças e daí eu usar sempre roupas bem largas, na tentativa de disfarçar. Tinha poucas amigas. Sempre tive imensos amigos. Adorava jogar futebol e era boa nisso. Basicamente adorava tudo o que um miúdo de 16 anos gostava. Futebol, carros, motas...
Era feliz... Tirando a parte de desejar ter nascido um rapaz.
Antes de fazer 18 anos, abri um bocado os olhos. Olhei para mim, como se fosse outra pessoa a olhar-me. Vi no que me tinha tornado ao longo dos anos e não gostei do que vi. Tomei consciência da auto-estima inexistente que eu tinha. Tomei consciência que não poderia mudar nunca o que eu era...
Achei tarde demais para conseguir "arrumar" toda a confusão que ia na minha cabeça. Deixei-me andar... Mudei um bocadinho, mas continuei a não me preocupar comigo. Decidi viver sem amor próprio, sem auto-estima, sem pensar no que realmente eu era.
Inevitavelmente sofri as consequências disso. Muita coisa correu mal, falhei muito, desiludi muita gente, porque esperavam mais de mim, pois sabiam que eu era capaz de mais.
A certa altura comecei a ver o que era viver quando não gostamos de nós próprios. E foi dificil...
E sei que é dificil de perceber o que é viver anos e anos sem quase conseguir olhar para o espelho. Ter dias em que é fácil odiar tudo em nós. Procurar soluções e não ter força para conseguir o que quer que seja. Assumir que tanto faz...
Este ano, e depois de mais uma coisa ter falhado em grande parte graças a eu ser assim, decidi que ia mudar. Tinha que mudar. Era urgente mudar!!!
E assim foi. Dei o grande passo de começar a frequentar o ginásio. Sempre gostei de desporto e faço-o sem qualquer sacrifício. Adoro aquilo. Tinha ali a minha única esperança de aprender a gostar de mim.
E consegui. Consegui em seis meses o que não consegui durante anos. Aprendi a gostar de mim, apesar das imperfeições. Aprendi que nada é mais importante que eu. Aprendi a adorar as minhas curvas. Aprendi o que é bom puder usar pulseiras, brincos e sapatos diferentes todos os dias. Aprendi o quão bom é ser mulher...
E adoro isso!
Agora sim, sinto que me libertei de tudo o que fui.
Agora sim, sinto-me pronta para abraçar aquilo que sou!
Agora sim...

Imagem: Fergie

5 comentários:

Miguel disse...

Um desabafo fantástico!

Espero, então, que tudo corra como desejas.

;)

Sara. disse...

Agora sim, és mais feliz.
E deixaste-me com um belo sorriso nos lábios.

;)

Cousas Giras disse...

Olá encontrei o teu blog por acaso e deixa-me que te diga que este teu post está espectacular. retrata e muito bem as várias mudanças da vida e o poder que nós temos em mudar algo!
Tudo de bom nesta nova fase da tua vida!
Bjs
Paula

Mona Lisa disse...

Por vezes acontecem-nos coisas nas alturas erradas. Coisas que nos deixam sentir assim..desadequadas e imperfeitas. Se te sentias assim certamente não era por acaso.
O que interessa agora é que começaste a olhar para ti com outros olhos.Aproveita esta nova fase!:)

Purple Petunias disse...

Eu também fui assim :)
Era uma 'maria-rapaz' que com os anos foi-se tornando mais feminina.

Parabéns pelo blogue :)

Beijo